25 de janeiro de 2012

Os Jesuítas e a lenda do Morro da Igreja

Um pouco entediados pela frente fria que chegava e com a televisão praticamente fora do ar por causa das tempestades solares que atingiram o planeta nessa semana, resolvemos rever um filme inglês já antigo, de 1986: A Missão. Esse filme nos lembrou uma lenda misteriosa e perseguida por muita gente, que envolve um dos principais pontos turísticos de Urubici: o Morro da Igreja.


O que a lenda nos conta
Conta-se que, em meados do século XVIII, o Morro da Igreja teria recebido jesuítas espanhóis que fugiam da perseguição portuguesa e bandeirante existente na Capitania Rio Grande de São Pedro, posteriormente chamada de Capitania de São Pedro do Rio Grande do Sul. Esses homens, acompanhados por guaranis, carregavam, em mulas, 40 cargueiros de riquezas trazidas da redução a qual faziam parte, no território dos Sete Povos das Missões. Sem saída, precisaram esconder o tesouro no Morro da Igreja.
Pedra Furada, Morro da Igreja
A fuga teria se originado da expulsão dos jesuítas do território português na América, em 1759, por determinação de Marquês de Pombal, primeiro ministro do rei D. José I.


O que a história nos conta
Era Pombalina (1750-1777)
A chamada Era Pombalina (1750-1777) ficou conhecida pela modernização do governo português, inclusive nas colônias, a fim de seguir as tendências iluministas da época. Uma dessas tendências era o fortalecimento do Estado Monárquico por meio da sua secularização, ou seja, do fim das influências da Igreja Católica no governo. Foi assim que D. José I, rei de Portugal, praticamente entregou o governo nas mãos de Marquês de Pombal e esse, pelas suas tendências e pelos conflitos enfrentados nas terras portuguesas entre colonos e jesuítas, resolveu expulsar a Companhia de Jesus dessas terras e confiscar todos os seus bens.
Porém, a expulsão também teve motivações econômicas e políticas geradas pelo chamado Tratado de Madri (1750), um dos maiores tratados de limites conhecidos na História do Brasil.
Tratado de Madri (1750)
Limites dos Tratados de Tordesilhas (1494), Madri (1750) e Santo Ildefonso (1777)
O documento revogava o antigo Tratado de Tordesilhas, praticamente nulo após a União Ibérica, tempo em que Portugal e colônias passaram a pertencer à Espanha, devido a problemas de sucessão do trono português. Dessa forma, não havendo mais limites na América do Sul, os portugueses passaram a ocupar e estabelecer negócios em terras antes estrangeiras. Porém, ao fim da União Ibérica, um problema de limites surgiu. Quais seriam as fronteiras da América Espanhola e da América Portuguesa?
Assim, Portugal e Espanha entraram nesse acordo que, entre muitas decisões, duas principais mudaram a história do sul do Brasil. Portugal trocaria a Colônia de Sacramento (fortificação portuguesa no sul do Uruguai) pelas Missões Orientais, ou seja, pelos campos do lado oriental do rio Uruguai ocupados pelos povos das Missões que, no total, eram sete. Além disso, o controle da Bacia do Prata foi dado à Espanha e o rio Uruguai seria o limite no sul da América entre Portugal e Espanha.
Missões Jesuíticas
Reduções jesuíticas espanholas no sul da América
As missões jesuíticas foram criadas pela Companhia de Jesus (1534, Inácio de Loyola), ordem religiosa que pregava, acima de tudo, a obediência ao papa, tendo uma forte tradição militar. Na Contrarreforma,  tiveram muito sucesso por aumentar o número de fiéis, convertendo nativos, e por controlar a educação nas colônias, fundando escolas. Na América, ao longo do século XVI e XVII, os jesuítas fundaram muitas missões, comunidades que se compunham de indígenas convertidos e que tinham, por atividades principais, a agricultura e o comércio de troca, além das práticas artísticas e culturais. Ficaram conhecidos, por exemplo, os violinos afinadíssimos produzidos por guaranis e o consumo da erva-mate. Eram comunidades independentes, contrárias à escravidão indígena, autossuficientes e de propriedade coletiva.
Cavalaria Guarani em missão jesuítica
Dois séculos de história, crescimento e enriquecimento fizeram com que algumas reduções se tornassem um tipo de nação rica, com peças de prata vindas do Peru, moedas de ouro, utensílios de todos os tipos de metais preciosos, ornamentos religiosos adornados com pedrarias, gado, plantações entre outras riquezas, tudo controlado por chefes jesuítas.
Mapa da redução São Miguel do Arcanjo - Sete Povos das Missões
Como cresceram muito, no século XVIII, passaram a ser um empecilho para a prospecção de mão-de-obra pelos bandeirantes, para as atividades econômicas dos colonos e para o Estado, que tentava ampliar seu poder em uma época de crise monárquica. Essa situação piorou ainda mais no governo de Marquês de Pombal e com o Tratado de Madri. Eram colonos, portugueses e espanhóis que não desejavam mais a presença das missões.
Guerra Guaranítica (1750-1756)
Mapa explicativo da Guerra Guaranítica. Observe que do lado oriental do rio Uruguai, estavam os Sete Povos das Missões
Os Sete Povos das Missões foram diretamente atingidos por essas mudanças. Tendo origem espanhola, a partir do Tratado de Madri, passaram a ocupar um território agora português. Ficou estabelecido que deveriam partir para o lado ocidental do rio Uruguai. Além do fato de serem mais de 30 mil e de estarem estabelecidos a muitos anos naquela região, sabiam que, se partissem para o lado espanhol, seriam igualmente perseguidos. Resolveram ficar! E isso gerou a Guerra Guaranítica (1750-1756), conflito entre guaranis missioneiros e portugueses, que tiveram o apoio dos espanhóis. Os jesuítas ficaram numa situação delicadíssima pois, se apoiassem os indígenas seriam considerados rebeldes. Embora alguns permaneceram ao lado da Coroa, outros deram apoio aos nativos, organizando a resistência à ocupação das terras e à escravização. No final do século XVIII, os índios se dispersaram, foram escravizados ou se refugiaram, retornando ao seu modo de vida antigo.


O que o filme nos conta
O filme A Missão (The Mission, ING, 1986) teve direção de Roland Joffé e foi protagonizado por Robert de Niro, Jeremy Irons e Lian Neeson.
O filme, que ganhou Palma de Ouro em Cannes e Oscar de fotografia, conta a história de um violento mercador de escravos indígenas que, arrependido pelo assassinato de seu irmão, realiza uma autopenitência e acaba se convertendo como missionário jesuíta em Sete Povos das Missões e participando da guerra Guaranítica.

O que o filme e a história tem a ver com a lenda
"Na escuridão das noites frias de névoa gelada, de capão em capão, com astúcia de índio, apagando rastros, por vales e canhadas, vem vindo a tropa de mulas tangidas pelos índios missioneiros, comandada pelo superior dos padres jesuítas. Ele em pessoa. (...) Lá vai em silêncio, mudo o cincerro, a tropa de mulas, com carga pesada.
O grupo pára em uma estância
As mangueiras das estâncias de Cima da Serra, nem mangueiras não são. São fortins, fortalezas. Trincheiras. (...) De taipa, sim. Mas de dois metros de espessura e três de altura. (...) Ali, bem no alto da serra. Os Aparados descendo em abismos a pique, por trás.
E a tropa de mulas, com os vasos sagrados e arcas forradas de couro e repletas de ouro, bivaqueando no mato, vai subindo as nascentes do rio Pelotas.
(...)
Já chegou nas fortalezas da estância. As quarenta bruacas estão apoiadas por dentro da taipa. O estancieiro recebe, à fidalga, a tropa que fizera anunciar por prudentes batedores. (...) Na certa, a bandeira (perseguidores), carregada com quatro mil índios amarrados em filas, subirá as nascentes do rio volumoso.
O grupo decide esconder o tesouro
Prosseguir não se pode. Descer com mulas os Aparados não dá. Só trilhas a pé por lajeados e peraus, por saliências nas rochas. (...) Esconder o tesouro? É preciso, e já. O local? Referências que o povo conheça. O pico mais alto? É o Morro da Igreja. A rocha, em janela furada, dá a impressão de ruína de fachada de igreja. É lá. (...)
A gruta, segredo dos índios, refúgio das horas incertas, vai acolhendo as bruacas descidas com laços de couro".

Na obra O Tesouro do Morro da Igreja (Ed. FCC, 1994), João Leonir Dall'Alba conta que, quando os índios e padres retornaram à estância, havia uma emboscada e ali foram dizimados, sobrando apenas um curumim para contar a história.
O livro de Dall'Alba nos traz, em quase todas as suas páginas, comprovações da existência desse tesouro e da crença dele em documentos, narrativas e depoimentos locais. O filme nos conta porque os jesuítas saíram do Rio Grande do Sul em direção ao interior do Brasil. A história nos explica os motivos. A lenda, que sobreviveu durante muitos anos em documentos e relatos, se encaixa nos fatos históricos.

Conclusão: simplesmente, revendo o filme, a noite rendeu boas discussões e interrogações.
Dizem que o grande tesouro do Morro da Igreja são as suas belezas...
Concordamos...




 




2 comentários:

  1. Gostaria de saber onde que encontro esse livero O Tesouro do Morro da Igreja (Ed. FCC, 1994) para comprar.

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  2. Endriw, acreditamos que o livro está esgotado, mas sabemos que existem exemplares para empréstimo na Biblioteca Pública de Lages, na Biblioteca Pública de Urubici e na Ong Instituto Serrano de Conservação da Natureza (Urubici/SC). Se você não encontrar, entre em contato conosco no email graxaim@graxaim.com que poderemos lhe ajudar, ok? Um abraço.

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